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Ansiedade no trabalho: quando o alerta não desliga às dezoito horas

06 de julho de 2026 · 7 min de leitura

Tem um perfil que chega tarde à terapia: a pessoa que está indo bem.

Entrega no prazo. É elogiada. Assume o que ninguém quer assumir. E passa o domingo inteiro com um peso no estômago que ela já nem chama de nada, porque virou o normal dela.

Como o resultado aparece, ninguém desconfia. Inclusive ela.

Como isso se parece por dentro

  • Você relê o e-mail cinco vezes antes de mandar, e relê de novo depois de mandar.
  • Uma reunião marcada às dez da manhã ocupa a noite anterior inteira.
  • Mensagem do chefe fora do horário dispara o corpo antes de você abrir.
  • Você antecipa a crítica: já preparou defesa para uma cobrança que ninguém fez.
  • Delegar é mais custoso que fazer, porque entregar o controle assusta.
  • Descansar dá culpa. Férias levam três dias para o corpo aceitar.

Nada disso aparece em avaliação de desempenho. Boa parte disso, aliás, melhora o desempenho por um tempo. É esse o motivo de demorar tanto.

O motor: a ansiedade paga adiantado

O funcionamento é quase econômico. A ansiedade cobra caro em desgaste e entrega uma coisa concreta em troca: previsão de erro. Quem vive antecipando problema realmente antecipa alguns.

Então o cérebro aprende: valeu a pena ficar em alerta. E reforça o padrão.

O que essa conta não mostra é o custo acumulado. Ele aparece depois, por três portas:

  1. Corpo. Sono ruim, dor de cabeça no fim do dia, mandíbula travada, intestino desregulado, gripe atrás de gripe.
  2. Rendimento. Passa do ponto e vira o contrário: refazer o pronto, travar em decisão simples, procrastinar a tarefa mais importante justamente por ela ser a mais importante.
  3. Vida fora do trabalho. Presente de corpo e ausente de cabeça. Irritação com quem não tem nada a ver.

Ansiedade no trabalho não é o mesmo que burnout

Vale separar, porque o encaminhamento muda.

Burnout é um fenômeno ligado ao trabalho crônico mal gerido e aparece com três marcas: exaustão profunda, distanciamento mental do trabalho, e queda de eficácia. A palavra-chave é esvaziamento. A pessoa não sente mais nada pelo que fazia.

Ansiedade é excesso de alerta. A pessoa sente demais, o tempo todo. Ainda se importa, e é justamente o quanto se importa que a mantém ligada.

Dá para ter os dois. Costuma ser nessa ordem: anos de alerta, depois o esvaziamento.

O que ajuda de verdade

Separe o que é carga do que é padrão. Se você trocasse de emprego amanhã, quanto disso viria junto na mala? A resposta honesta define se o problema está na empresa, em você, ou nos dois.

Feche o dia com ritual, não com horário. O cérebro não desliga por decreto. Cinco minutos anotando o que ficou aberto e o que é a primeira coisa de amanhã fazem mais do que fechar o notebook às dezoito em ponto.

Trate notificação como escolha. Sair de grupo de trabalho fora do horário é uma decisão sua e é reversível.

Teste a previsão. Anote a catástrofe que você previu e o que aconteceu de fato. Depois de vinte anotações, o padrão fica difícil de ignorar.

Procure ajuda antes do corpo cobrar. Esse é o ponto onde o perfil que descrevi mais erra: espera chegar no limite para se autorizar a pedir.

Onde a terapia entra

Não é para você render mais. É para o alerta parar de ser o combustível.

Na prática, a gente olha com calma para os momentos em que o alerta dispara, a reunião, a apresentação, a mensagem que chegou às vinte e duas horas, e para as regras silenciosas que sustentam o padrão, do tipo “se eu não estiver à frente de tudo, alguma coisa vai desandar”.

Essas regras quase sempre foram úteis um dia. Só pararam de ser. Enxergar de onde elas vêm é o que abre espaço para escolher outra coisa.


Atendo online para todo o Brasil, com horários que cabem em agenda de trabalho. A primeira conversa serve para entender o que está acontecendo antes de decidir qualquer coisa.

Iolanda Alves de Santo

Psicóloga clínica, CRP 08/09442. Terapia Existencial Fenomenológica.

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